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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A CULTURA DA MOBILIZAÇÃO.....


O decorrer dos fatos atuais no Egito deixou claro uma coisa:
Mobilizações populares ainda são a melhor maneira de promover mudanças, sejam elas individuais ou territoriais. A máxima onda de dna pulsante dentro do globo pode trazer benefícios, quando o bem pretendido é nobre. Nada de movimentos classistas onde uma minoria grita por mudanças em seu próprio bolso.
Mas sim uma centelha que promove deslocamentos tectônicos, em idéias que fazem diferença.

Vivemos dentro de um mundo binário colaborativo (por mais que ainda a velha retórica teime em pulsar), onde não cabe mais o isolamento retornável. Idéias geram mudanças e para que elas aconteçam é necessário mobilizações grupais. Os sites que promovem o chamado crowdfunding (arrecadação de recursos finaceiros provenientes do consumidor final, para catapultar projetos culturais), tem uma vocação revolucionária de massa em sua genética.

O visitante do site escolhe o projeto que mais move seus ventrículos e contribui com uma quantia em dinheiro. O valor do investimento é retribuído com uma recompensa que varia de projeto para projeto. Está então formada uma rede de tráfico cultural potente. O consumidor tem acesso ao conteúdo e ainda por cima pode escolher aquilo que gostaria de ver, ouvir ou ter. Fica a idéia de que a mobilização de massas é poderosamente produtora de sinapses de arte pura, sem intermediários. O artista em contato direto com o consumidor.

Aqui no Brasil uma inciativa pioneira partiu de três cabeças pensantes. Diego Reeberg, Luís Otávio Felipe Ribeiro e Daniel Weinmann. A confraria colaborativa chamada CATARSE é a plataforma de crowdfunding brasileira, que inicia 2011 com ambições cada vez maiores e números que dissolvem qualquer tentativa de pessimismo quanto a relevância e sucesso do site. Em três semanas 15 mil visitantes, mais de 1000 pessoas cadastradas e um total de R$ 10.000,00 investidos em idéias mobilizadoras, que vão desde peças teatrais de dança até um projeto sobre sustentabilidade.

O GD conversou com Luis e Diego, os dois cavaleiros de Jorge que estão lutando para que a cultura possa ser algo de fácil acesso e cada vez menos elitizada.


Como surgiu a idéia de um projeto do tipo crowdfunding inteiramente nacional?

Na verdade são dois lados da história. O meu e do Luís, a idéia veio depois que a gente resolveu procurar modelos de negócios interessantes fora do Brasil, pois queríamos empreender em algo. Aí a gente conheceu o Kickstarter, site norte-americano que foi um dos pioneiros em crowdfunding. A gente ficou encantado pelo modelo, pois tinha tudo a ver sobre com a forma que pensavamos que um negócio deveria ter: colaborativo, conectado às mídias sociais, promover mudanças na sociedade.

Do lado do pessoal da Softa (empresa de Porto Alegre que também é sócia no Catarse), a ideia veio do Daniel Weinmann. Ele é músico, dançarino de tango e, pra ele, a idéia surgiu como uma necessidade de financiar seus próprios projetos. Só depois ele veio a conhecer o Kickstarter.

Nos dois lados, a gente viu que no Brasil era necessário uma iniciativa como essa, pois vimos que muitos bons projetos não conseguiam obter financiamento e ficavam engavetados por isso. Como uma parte importante do processo é a curadoria, sabíamos que os sites estrangeiros não conseguiriam atuar no Brasil sem uma equipe própria. Achamos melhor começar isso então nós mesmos, com uma plataforma que fosse do jeito que quiséssemos.

Nosso maior exemplo é o Kickstarter, principalmente por causa do alto nível dos projetos que pareciam por lá. Mas também estudamos outros sites para entender os prós e contra do modelo. O Sellaband, primeiro plataforma de crowdfunding, que surgiu na Holanda e teve a música como seu foco também foi outra inspiração. O Ulule e o Fundbreak (que mudou seu nome agora para Pozible) também foram boas inspirações.

O projeto Catarse, dentro do seu tumblr, está constantemente colocando no ar notícias sobre outros sites do gênero. O projeto brasileiro mantém uma network com algum desses fora do país? Existe alguma idéia nesse sentido?

A gente teve contato com os responsáveis pelo Ulule, que foram sempre atenciosos. Mas, na verdade, nosso principal contato fora do Brasil é com o Gijsbert Koren , principal responsável pelo blog Smarter Money, que trata basicamente de crowdfunding, e um dos empreendedores por trás do CrowdAboutNow, plataforma de crowdfunding sediada na Holanda com foco em financiamento de empresas.

O público brasileiro que consome cultura já entende a idéia da Catarse? A receptividade está em que nível?

Na verdade a gente acha que ainda pouca gente conhece a idéia, mas a receptividade de quem já conheceu é muito grande. É normal haver dúvidas “E quem garante que o projeto vai ser executado? E se não me entregarem a recompensa? E se o dinheiro levantado não for suficiente?”, mas acho que ao compreenderem melhor o modelo – e a gente está mais do que disposto a responder essas dúvidas – o crowdfunding se consolidará em diversos meios.
Em pouco mais de 3 semanas desde que o Catarse está no ar já temos mais de 15 mil visitantes únicos, mais de 1000 pessoas cadastradas no site e 10 mil reais investidos nos projetos, acreditamos que são ótimos números para um site – e um modelo – iniciante.



Como vocês selecionam os trabalhos que serão colocados no site?

Primeiramente observamos se a ideia por trás do projeto bate com o mínimo de qualidade que queremos para o site. Não precisa ser algo inteiramente novo, mas tem que ter algum que de diferente, fora do comum, até meio louco (num bom sentido). Aqui o critério é mais subjetivo, lógico, mas acreditamos que seja importante para as pessoas que forem conhecendo o Catarse aos poucos saberem qual será o estilo de projetos que entrarão no nosso site, qual é a nossa cara.

A gente também olha que tipos de trabalho o dono do projeto já realizou. O ponto é conhecer, ao menos brevemente, o histórico dele e tentar entender se ele é uma pessoa apta a executar aquele projeto caso seja financiado.

Depois disso, a gente vai olhar o projeto em 4 aspectos: vídeo do projeto, descrição, recompensas e valor mínimo. Aqui a gente vai usar nossa experiência em ter acompanhado o que acontece no mundo em termos de crowdfunding nos últimos 10 meses para ajudar as pessoas a mandarem um projeto que tenha uma ótima qualidade e seja atrativo para o público. Caso o projeto não se enquadre no que consideramos como o mínimo aceitável para o Catarse e não se predisponha a realizar as alterações, ele não será postado no site. Na verdade, esse é um processo que usamos com o objetivo de aumentar a chance do projeto ser financiado com sucesso.

Você acredita que é possível o público brasileiro pagar por esse tipo de experiência ou ainda vivemos em um país que as pessoas estão apenas dispostas ao que é de graça?

Tenho certeza de que estão dispostas. O fato de as pessoas que apoiarem os projetos ganharem alguma recompensa, algum mimo, por isso, diminui a barreira para contribuir. Não estamos falando sobre doação, o que talvez seria mais difícil de pegar no Brasil, mas é algo que consideramos estar entre o mecenato e o comércio. Acreditamos que esse ponto é fundamental para o modelo ter sentido no nosso país.



Como vocês veêm o mercado de produção de conteúdo nacional? Projetos como a Catarse são a resposta à uma lei como a Rouanet, que por muitas vezes coloca em xeque a honestidade do sistema???

A gente tem uma crença muito forte de que tem muito projeto bom que ou não se adequa à lei ou não quer enfrentar toda a burocracia. Existem também muitos projetos de pequeno porte que precisam de agilidade e flexibilidade para procurar financiamento. A burocracia é um ponto importante. Se um projeto é enviado para nós e passa pela nossa triagem inicial em todos os pontos, autorizamos ele a entrar no site e começar a levantar o dinheiro em no máximo 2 dias (considerando finais de semana e feriados!).

E, lógico, quanto à honestidade do sistema, a gente acredita que o crowdfunding seja a maneira mais transparente de se financiar um projeto. O criador e seus apoiadores podem ter um diálogo aberto, direto, sem intermediários. Se o criador do projeto não for transparente, dificilmente ele captará aquilo que precisa. É um sistema que premia essas atitudes: honestidade e transparência.

 Um projeto como o de vocês realmente coloca nas mãos da população o poder de escolher o quer consumir no quesito cultura, vocês não se preocupam de alguma maneira com a diminuição da qualidade pelo apelo popularesco que a sociedade brasileira tem quando o assunto é cultura para grandes massas???

Não. Primeiro porque a grande maioria dos projetos é de nicho – e é a rede de relacionamentos existente nesse próprio nicho que apoiará a maior parte do valor que o projeto necessita.
Outro ponto é que a gente acredita que o site é uma grande vitrine dinâmica aonde as pessoas possam conhecer mais trabalhos artísticos diferentes e se interessar por eles. Na verdade, acreditamos no contrário do que propõe a pergunta, acreditamos em um processo de educação executado pelo Catarse onde cada vez mais a cultura será percebida com algo de maior valor.

Quem decide o sistema de recompensas para as pessoas que investem nos projetos e se existe um direcionamento para essas recompensas, feito pelo site, para que o interesse aumente?

As recompensas são decididas pelos próprios criadores do projeto, já que geralmente estão atreladas ao próprio resultado final da execução - que eles conhecem muito mais a fundo que nós. Além disso, podem ser muito pessoais, envolvendo habilidades do próprio criador para retribuir o incentivo de seus apoiadores. Apesar disso, nós ainda ajudamos muito os criadores a pensar não só nas recompensas em si, mas também em como descrevê-las, já que isso é parte fundamental para chamar a atenção das pessoas. Um dos grandes diferenciais desse modelo são as recompensas, não é uma doação é uma troca de valor.

Vocês acreditam que sites como o Catarse serão os futuros catalizadores na distribuição de cultura dentro dos países e aqui no Brasil. É possível que à partir de uma idéia como a de vocês, exista uma discussão de como a cultura deva ser difundida dentro do Brasil, para que todos tenham acesso?

Acreditamos sim, e isso porque o modelo tem tudo a ver com a sociedade que enxergamos para o futuro: colaborativa, interconectada, pautada na economia criativa. Também acreditamos que surgirão plataformas de nicho para permear todas as possibilidades relacionadas à cultura, como por exemplo é a iniciativa do Queremos (www.queremos.com.br), focado em trazer e produzir eventos culturais a partir do financiamento colaborativo.
E não é só possível, como necessário que haja essa discussão sobre a difusão da cultura, mas o momento será um pouco mais pra frente, quando o modelo já tiver um mais bem estabelecido, encorpado, e disseminado na sociedade. Acho que dessa forma a possibilidade de mobilizar e gerar uma mudança será maior.



A Catarse possui alguns projetos interessantíssimos, como por exemplo sobre sustentabilidade feito pela jornalista Natália Garcia. Vocês acreditam que não apenas discos e livros podem ser causadores de grandes mobilizações de crowdfunding, mas também projetos sociais?

Com certeza. Quando a gente fala em projetos criativos, estamos conversando sobre um mundo de possibilidades. Milhares de projetos sociais com ideias fantásticas estão espalhadas pelo Brasil e precisam desse empurrão financeiro. E outra coisa muito importante é que o Catarse, não só como possibilidade de ajudar esses projetos a serem financiados, funciona como uma vitrine para que mais pessoas conheçam e lutem por essas causas.

É possível no futuro um projeto político social ter espaço dentro de uma plataforma de crowdfunding? Algum político já procurou vocês para algo do gênero??

Nenhum político procurou a gente, mas a própria campanha da Marina Silva e, principalmente a do Barack Obama, nos EUA, tiverem forte apoio popular em favor de suas campanhas,
Acho que o crowdfunding é um mecanismo que eles deveriam usar para ajudar, com seu apoio e influência, a solucionar problemas de forma muito mais rápida e organizada.

 Quais os planos para o futuro. O Catarse já pensa em expandir os domínios ou ainda é cedo para pensar nisso???

A gente pensa sim em expandir os domínios, pelo menos a nível de América do Sul, mas não faremos isso antes de atingir um grande público aqui no Brasil. As possibilidades aqui são imensas, é impossível mensurar a quantidade de bons projetos que surgem a cada dia – além daqueles que estão parados só esperando esse empurrãozinho financeiro.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

VALQUíRIA METALOERÓTICA...

Em um mundo de inúmeras sensações extremas, a literatura é fio condutor destas por entre milhares de letras catalisadoras. Guerras, dramas, poesia, sexo, erotismo, amor e qualquer outra parafernália sináptica que abrigue dentro de si, uma coleção de ligações neurológicas que disparam acetilcolinazes de transformação na alma.
 Mas existe algo que não transparece na escalada de sentimentos que os livros despertam. A luta de seu autor para que o trabalho ganhe a visibilidade necessária, para tocar o primal instinto de alguma pessoa. Não basta apenas escrever, necessário uma luta que transporta escritores para uma arena onde não existe pureza de poemas entardecidos ou nuances em nuvens doces. A corrida é selvagem para quem se coloca diante do monstro das editoras. Essas feras capitalistas que muitas vezes preferem o extermínio à reciclagem. A morte precoce ao milagre da vida...
Mas existem valquírias. Mulheres que tomam para si a coragem em um mundo onde, cada vez mais, a emoção e a honestidade parecem frígidas. Munidas apenas de uma força de vontade vulcânica e de talento de sobra para disseminar idéias e bater de frente com o conformismo barato desse dia-a-dia enfadonho. Chantal Dalmass é assim. Guerreira diária contra a vontade de uma editora que queimaria seus livros. Cavalgando por entre arranha-céus, empunhando apenas letras dispostas geometricamente em folhas. Dando livros às pessoas que aceitam serem tocadas pela poesia de seus contos. Uma dádiva em forma de doação que exige calma dos passantes, pois o contrário pode dar margem a interpretações errôneas.
Ser arrebatado por esse tufão de nome Chantal é tão certo quanto o ar respirado.
O GD conversou com essa autora brasileira que luta diariamente contra o monstro editorial.


 Você atualmente distribui livros gratuitamente pelas ruas da capital. Por que você resolveu tomar essa atitude?

CHANTAL DALMASS: Estou distribuindo gratuitamente 3716 exemplares dos livros MENTIRAS E CONFISSÕES, de minha autoria, e A CAMA REDONDA DE MARIA BEATRIZ, de Maria Beatriz Soares, publicados em 2005 pela editora Planeta e que seriam queimados em “operação de destruição de estoque”.
Consegui salvar os livros da fogueira da editora Planeta e agora dou os exemplares nas ruas de São Paulo. Filas de cinema, nas calçadas da rua Augusta, na Barão de Limeira (em frente ao prédio do jornal Folha de São Paulo), na avenida Paulista; já distribuí pessoalmente cerca de 1600 livros.
Dou o exemplar nas mãos do leitor, os livros que seriam queimados estão sendo lidos e passados adiante, os livros estão vivos.
Dou os livros na rua simplesmente porque não consigo viver com a idéia de que uma editora queimar livros seja coisa normal.
A editora queima livros porque é o modo mais simples, rápido e barato de ganhar espaço em seus depósitos e de economizar com transporte, controles, prestação de contas (sobre vendas nulas ou insignificantes) e pagamento de direitos autorais.
Para a editora, doar os livros para bibliotecas e escolas custa dinheiro (frete, etc), vender a preços populares também custa (um funcionário da editora terá de controlar quantidades, estoques e vendas, além de prestar contas e pagar os centavos devidos ao autor).
Queimar é muito mais eficiente!
Dou os livros que salvei da fogueira por duas razões: primeiro, em protesto contra a prática bárbara e abjeta de queimar livros; em segundo lugar, para divulgar o meu trabalho, fazer circular os livros. Que sejam lidos, criticados, que sirvam para passar o tempo, que – com sorte, muita sorte – inspirem alguém.
Espero ainda que os leitores se recusem a comprar de uma editora que queima livros e que trata os autores e sua obra como lixo tóxico.

Como as pessoas recebem essa sua atitude de distribuir livros gratuitamente?

Surpresa, indiferença, risos, raiva, tem de tudo! Em geral, a primeira reação é a incredulidade. Nas ruas, as pessoas desconfiam de mim, não acreditam que é de graça, que estou dando livros novos. E se acreditam, muitos pensam – e dizem – que o livro deve ser uma porcaria, que se fosse bom eu não estaria dando em vez de vender. Ou que nada que é bom vem de graça. Estou acostumada, a reação é natural, não me ofendo e ofereço para o próximo da fila. Muitas vezes a pessoa que recusou muda de idéia e vem pedir um exemplar. Eu dou, agradecida.


 Você acha que as editoras e seu modelo atual de trabalho visam mais o lucro do que a qualidade?

É claro que as editoras visam o lucro, pois são empresas como quaisquer outras, não há nada de mal nisso.
O que é perverso é que a maioria das grandes editoras espera que o livro se venda sozinho, o que acontece no caso de autores famosos ou que têm exposição na mídia. Exemplo recente, o compositor Chico Buarque, que acaba de conquistar o seu terceiro Prêmio Jabuti. O autor é uma estrela, vendas garantidas!
Quando o autor brasileiro não é celebridade, a edição é pequena (3 a 4 mil exemplares) e o esforço de divulgação, praticamente zero. Aí, sem divulgação, o livro não vende mesmo. O livro não vende porque ninguém sabe de sua existência. O livro não vende porque não está fisicamente à venda nas prateleiras das livrarias.
O livro não vende, não vende, não vende.
E ficam os exemplares um tempo lá mofando no depósito da editora. Passados alguns anos eles queimam, e caso encerrado.

Ainda existe muita discussão sobre o advento do iPad e plataformas que comercializam livros digitais. Você acredita que a leitura dos livros físicos (papel) está com seus dias contados?

Não nego que o prazer de ter o livro nas mãos é algo sensual, gosto do cheiro do papel, do toque, de uma capa bacana. Mas acredito que há espaço para todas as formas de leitura e de publicação, não acho que os iBooks e similares ameacem os exemplares de papel.
O que me assusta, sim, e me causa náuseas é aceitar com naturalidade a queima de livros por uma editora.
Um país em que uma empresa que produz e publica livros – uma editora – queima milhares de exemplares novos é um lugar hostil, um pedaço do inferno, um fim de mundo em que coisas terríveis podem acontecer. Impunemente.
  
O conto tem se tornado bem popular na internet. Vários sites dedicados à literatura fornecem espaço para autores. Você acha que o conto é a forma de literatura que melhor se encaixa com o formato virtual?

Textos mais curtos – contos, crônicas, poesias – sem dúvida se adaptam bem ao formato virtual, à exibição na internet.


 Como surgiram as primeiras letras na sua vida? Quem te inspirou pela primeira vez?

Palavras bonitas, rimas cheias de ritmo e música. As Letras surgiram na minha vida através da poesia; ganhei do meu pai um livro de sonetos de Guilherme de Almeida e um outro, um pocket book, de Olavo Bilac. Depois vieram Camões, Castro Alves, Manoel Bandeira. Eu e meu pai líamos juntos, eu acabava decorando os versos, foi assim.
Então descobri a ficção: Monteiro Lobato e Julio Verne. Mitologia era um assunto fascinante. Romances épicos. História. Ficção científica. Biografias. Lia de tudo. Na faculdade – cursei Direito na USP – minhas disciplinas favoritas eram Filosofia do Direito e Direito Romano, com todas aquelas questões passionais envolvendo adultérios, concubinatos e intrigas de família. Algo como o seriado de TV “ROMA” em plena sala de aula, nas Arcadas do Largo de São Francisco.

 Teus contos têm uma imagem forte e visceral, deixando o leitor sentir cada sensação física do que as tuas palavras descrevem. Quando você descobriu seu estilo?

 Não existe “o” momento, a gente vai escrevendo, inventando histórias. E vai mudando também, amadurecendo. Os meus primeiros textos eram mais rebuscados; hoje procuro a simplicidade.



 O que te inspira? De onde vem a força criativa de Chantal?

O que me inspira? Ah, muitas coisas. Observo as pessoas, ouço casos, aumento aqui, invento ali. Ou sonho, fantasio cenas inteiras, penso nos menores detalhes: sons do ambiente, cheiros, cores, roupas, disposição dos móveis, incidentes. Fecho os olhos e crio minhas histórias como se assistisse a um filme. Faço isso na cama, tomando banho, enquanto cozinho ou treinando na academia; só escrevo realmente – no computador ou no papel – depois de ter convivido com os personagens durante dias e dias, ou seja, quando a história já se tornou realidade na minha imaginação.
Escrevo para seduzir, escrevo para provocar e agradar os meus dois amores.
Escrevo por alívio, por raiva, por vingança; às vezes escrevo para matar, gosto de matar! Sou boa com venenos, facas e cartas anônimas.
Escrevo também por tédio, pura falta do que fazer; eu passo mesmo o tempo todo inventando histórias e falando sozinha... Aí escrevo o que imaginei, o texto já sai prontinho.

As fotos do seu site aumentam ainda a sensação de imersão nesse universo criado por você. Cada conto tem uma imagem específica ou a aleatoriedade deve ser preservada?

As fotos publicadas no meu blog http://chantaldalmass.zip.net e no Facebook são auto-retratos feitos com a câmera do celular. Geralmente uso o temporizador automático, 10 segundos (risos). As fotos fazem parte de momentos íntimos, em que estou sozinha, pensando nas histórias, imaginando, fantasiando. Eu arrumo o celular, depois fecho os olhos e me deixo envolver pela sensação do personagem, fica aquele clima... Isso me inspira, mas as imagens são coisas minhas, não têm correspondência direta com os contos.

Existe uma autocobrança sua em relação ao criar?
Não, não me cobro nada.
(Também nem recebo mais nada pelo meu trabalho como ficcionista, foi preciso arrumar outras maneiras de ganhar a vida. Ah, e ignoro o Acordo Ortográfico, jurei que só escrevo idéia e vôo sem acento se me pagarem!)
Quanto a criar, faço isso o tempo todo: imaginar histórias.
E já fazia há muito tempo, antes de sequer pensar em escrever um texto, um conto, uma frase para um concurso de revista.
Vivo em um mundo de fantasia na companhia de amigos, inimigos e desconhecidos imaginários; escrever o que acontece neste lugar e com essas pessoas é uma consequência.



Como você pensa, a partir desse episódio com a editora, comercializar seu trabalho?

No momento, penso apenas em distribuir os 3716 exemplares que salvei da destruição.
Mais tarde decidirei se devo ou não procurar outra editora para a publicação dos meus trabalhos inéditos; só vou publicar se receber da editora um tratamento decente, com divulgação e distribuição apropriadas.
Do contrário, guardarei os textos e as histórias para o meu público restrito, as pessoas especiais quem têm acesso aos meus arquivos e diários privados.


Você acha que a internet, criando esse clima maior de “faça você mesmo” abriu espaço para gente talentosa ou apenas deixou muito mais gente com o espírito "wanna be" de ser aflorado?

Ah, não sei, depende da personalidade, do talento de cada um. De qualquer forma, se a internet servir para incentivar novos escritores, que seja! Esperemos grandes histórias, lindos textos! Esperemos mais e mais leitores também. Mal não faz, não é mesmo?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

DIRETO E RETO

Uma conversa rápida com a banda que ainda será muito mais do que apenas um novo rosto dentro do mundo indie.
Os TWIN SISTER, não gostam da maneira com que o site myspace transmite a música, são fãs de Alice Coltrane e não ligam para comparações. Mas essas posições firmes não devem ser confundidas com falta de leveza. Longe de qualquer comparação com outros sons, a banda é antes de mais nada um sopro de originalidade. As nuances absurdamente claustrofóbicas, movidas por uma beleza descomunal de vocais que não farão nada além do que você conseguir entender o significado da palavra amor. Afinal de contas como a própria vocalista Andrea Estella disse ao GD, o romance é a única coisa que ela conhece. Mais uma vez aquele grande obrigado pela revisão na tradução de Virginia Serralha
O jogo rápido foi assim:

O ano passado um movimento anti-myspace estava acontecendo dentro do próprio site e na página de vocês existe um aviso para que as pessoas acessem o site da banda ao invés do myspace. O idéia original do espaço para as bandas se perdeu?

Em grande parte. É realmente difícil de lidar com as mensagens dentro do myspace, e nós não gostamos da maneira como os mp3 são tocados em uma taxa de transferência tão baixa

O som da banda é realmente diferente da maioria da bandas atuais, sem a necessidade de aparentar ser progressivo ou um rock básico. Como vocês costumam compor as canções?

Nós tocamos até ficarmos felizes com as canções depois paramos.

Umas das marcas da banda são os vocais de Andrea Estella, com nuances cheias de ecos de grandes trabalhos vocais femininos, que não apenas cantam mas sim usam a voz como instrumento primordial dentro da canção, como por exemplo Kate Bush. Na hora da composição isso se torna uma coisa pensada ou ela chega e coloca toda a magia?


Andrea vem com toda a mágica

ANDREA:
Eu não penso à respeito do trabalhos das outras pessoas

Influências. Quem são?

Nós gostamos de Alice Coltrane e Kraftwerk

Como foi tocar esse ano no festival SXSW? Deu tempo de conhecerem outras bandas?

Foi divertido tocar, mas não conseguimos conhecer ninguém.

As letras são uma das coisas que chamam atenção na banda. Uma simplicidade bonita e em sua maioria sempre sobre relacionamentos. O quanto pessoal elas são e todos da banda contribuem?

Andrea e Eric escrevem a maioria das canções.

ANDREA: Eu não leio muito, então minhas letras não são boas assim. Romance é a única coisa que eu conheço......


Vocês acham que 2010 será o ano em que a mistura de rock alternativo e música eletrônica vai dominar o mundo ou ainda há espaço para todos?

Há muito espaço ainda para todos.

Tocar em grandes festivais ou pequenos palcos?

Nós apenas nos apresentamos em pequenos clubes, então a nossa experiência com grandes palcos ainda é pequena. Preferimos tocar em lugares menores, então grandes festivais podem ser um problema para nós.

O festival Loollapalloza soltou a lista de atrações hoje (a entrevista foi feitas na semana de lançamento da lista). Muitas novas bandas, mas um line up de bandas antigas. Festivais ainda são um bom lugar para as bandas que começam ou as grandes ainda são as que mais se beneficiam?

Nós não sabemos muita coisa sobre esse mundo.......

Planos de algum dia virem para a América do Sul?

Nada ainda em vista, mas adoraríamos um dia tocar aí.







segunda-feira, 22 de março de 2010

A CAPACITÂNCIA EXPLOSIVA EM NOTAS LISERGICAMENTE OCTAEDROCUBANAS

Existem sons e existe a capacitância de energia liberada em explosões de ritmo. Essa segunda categoria pertence à algumas bandas apenas.
Pessoas que por saberem onde as experimentações devem ser colocadas, acompanhadas de doses lisérgicas de força octaedrocubana, são capazes de manter seus ouvidos atentos e abertos para cada nota que sai de uma corda de guitarra, baixo ou os sons de uma simples baqueta. É impossível se manter quieto, parado e impassível. Sons como esse são capazes de mover continentes que durante séculos apenas tinham como velocidade o nada.
Uma dessas bandas mudou-se de Perth na Austrália para Sheffield (a terra dos Arctic Monkeys), e estão gostando do que encontraram por lá. Com um disco nos planos breves dos MONICANS, parece que a banda, ainda em fase inicial está descobrindo onde seus sons podem leva-los. Se depender desse começo, provavelmente a banda ainda vai fazer explosões de sons em ouvidos não somente na Austrália ou Inglaterra.
O GD conversou por e-mail com o guitarrista e vocalista Paul Beard e ele contou de onde nasceu e para onde vão as explosões sonoras dos MONICANS.

Como vocês se conheceram???
A idéia de montar um power trio foi algo que aconteceu naturalmente ou uma decisão pensada?
Começamos como um trio, por um breve período tivemos um segundo guitarrista, mas não estava dando certo, e no fim sentimos que não precisavamos de um som extra, é bom manter as coisas simples.

O som dos Monicans me lembra as grandes bandas de rock do início dos anos 90, como por exemplo Sonic Youth e os Pixies. A impressão que eu tenho é que vocês são uma banda do documentário 1991: The Year Punk Broke (leia post sobre o filme aqui). O quanto de influência bandas como o Sonic ou os Pixies tem no som de vocês?

Essas bandas tem sido uma grande influência, principalmente pra mim pessoalmente. The Year Punk Broke é um exemplo de uma ótima era na música, a melhor desde os anos 60, com uma mistura sensacional de melodia, força e experimentação que ainda não se repetiu, a não ser por uma banda estranha aqui ou ali. Muito interessante o fato de você ter escolhido esse filme como exemplo, boa escolha.

Falando em influências, quais as bandas da atualidade que vocês curtem??


Eu acho que a última grande banda de qualquer lugar foi o Arctic Monkeys. Tem ocorrido muitas coisas boas desde então, mas não posso falar que tiveram o mesmo impacto e eles continuam a evoluir como artistas a cada novo disco, o que toda grande banda deveria fazer.

Atualmente com o pandemônio dentro da internet e a facilidade que as pessoas tem para ouvir novas bandas, você acha difícil separar o que é bom do que não é??

É de fato interessante. De um lado é muito mais fácil para as bandas serem ouvidas no mundo inteiro, mas por outro lado há muito mais bandas, o que aumenta a competição. Parece, para ser mais positivo que negativo, que 15 anos atras uma banda australiana sem contrato com gravadora, morando em Sheffield, nunca teria chegado ao Brasil sem uma grande gravadora para distribuir sua música.

Como foi a mudança de Perth para Sheffield, e porque vocês escolheram morar na Inglaterra?

A mudança está sendo ótima. O melhor da Inglaterra é que muitas cidades estão localizadas em uma área razoavelmente pequena e cada cidade tem seu próprio cenário musical acontecendo, então é facil viajar por ai e tocar sem cansar o público. Essa foi uma das principais razões para a mudança. Perth é isolada na costa oeste da Austrália e viajar para outras cidades pode demorar dias de carro. Nós gostamos de Sheffield porque está bem no centro de tudo, você pode chegar a Manchester ou Londres em poucas horas. Desde que chegamos percebemos como é agitado o cenário musical por aqui.

So Unsure é uma música épica dividida em duas partes, começando calmamente para depois se tornar uma peça de nervosos riffs de guitarra e uma baixo que me lembra algo como uma britadeira. É uma canção muito boa.
E uma música como La, é muito mais levada para o lado do pop rock. No início com um refrão simples e no meio da estrada novamente ganha uma energia punk e uma crueza poderosa.
Como vocês decidem o momento em que uma canção muda de algo mais sossegado para uma explosão?

É o que sempre parece acontecer. Como compositor eu sempre fui atraído para o folk e o pop melody, eu acho que dar um impulso torna mais interessante, principalmente se tocado ao vivo. Nós procuramos fazer algo diferente em cada canção que criamos, e elas tendem a ficar cada vez maiores conforme fazemos os arranjos. Eu sempre achei que Horizon era um ótimo exemplo da gente se deixando levar nesse sentido.

A Beacon tem uma sinergia lisérgica parecida com The Flaming Lips, mas com uma linha que lembra coisas feitas pelo Pink Floyd em Meedle. Vocês pensam em um dia fazer um disco onde o peso das guitarras se misturem mais intrinsicamente com sons experimentais????

Nós sempre faremos experimentaçções mas nós sempre gostaremos da melodia. Eu acho que é a combinação dos dois que realmente cria uma boa música, coisa que as grandes bandas fazem muito bem, só olhar os Beatles, Nirvana, etc.



Vocês estão agora gravando novos singles. O disco inteiro sai quando??

Um single parece ser o melhor jeito de começar, depois do estágio da demo, é um ótimo jeito para que as pessoas escutem sem receber muita informação, então sem previsão de album ainda. Entretanto gostariamos de lançar um disco completo ainda este ano, portanto está definitivamente no horizonte.

Como vocês veêm a música atualmente?
Você acha que o ato de baxar músicas gratuitamente pela internet está acabando com a fonte de renda das bandas??

Eu acho que as bandas ainda podem ganhar dinheiro mas elas precisam agir diferente. Bandas devem estar dispostas a trabalhar por isso, o que acaba eliminando as bandas mais fracas. Eu acho que um show ao vivo faz a banda ser grande, então as bandas que podem fazer bons shows são aquelas que no final lucrarão com isso. Com a música na internet acaba se tornando um modo de subsistência. As pessoas vão pagar pelas músicas das bandas que eles mais querem ouvir, principalmente se tratando de um nivel mais local, então acho que as bandas podem se beneficiar disso.

O som da banda fica mais poderoso a grande nas apresentações ao vivo. O que vocês preferem criar dentro od estúdio ou tocar em ao vivo???

Tanto ao vivo quanto no estúdio tem seus pontos positivos, mas nada supera a adrenalina do momento de uma apresentação ao vivo. Não tem nada igual. O estúdio parece ser um lugar pra se completar a música, certas partes de muitas das nossas canções permanecem meio em aberto para ter espaço para improvisação, mas no momento da gravação elas se completam.

Banda boa e boa conversa, pelo final fiquem com Monicans e HORIZON: